sábado, 27 de dezembro de 2014

Cai o pano

Enregela-se o ar pelas portadas da janela, abertas de par em par. Congelam-se os pés, dentro da casota onde dormem.
Inspira, expira
o mundo morre em volta.

Que nada mais se erga, e se prove errado o compromisso louco da perfeição. Que nada mais levante o dedo de sentida ilusão de fósforo na noite e estrelas cadentes.

Nada. Exceto ela e o
inspiro, expiro
Nada. Exceto o pano.

Pequena, até o palco finda
                                                   até o público evacua
                                                                                          pequena. o pano cai.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quando amas, não precisas de pensar nisso

Imagino-a de lábios cerrados, concentração intensa nas palavras que demora quinze minutos a escrever. Não sabe o que quer ouvir, mas pergunta-mo, mesmo assim.
"Como sabes que amas alguém?"

E eu penso que se me congela a língua, doem-me os dedos de sonhar sequer que devo responder-lhe. Porque vivo intensidades equivalentes ao cheiro leve de maresia, numa tarde de verão a findar, e como flocos de nuvens me escapa o raciocínio lógico de como explicar que distinguir felicidades é uma eternidade num dia.

Na verdade, pergunto-me mesmo se sei responder. Como pôr em palavras radiâncias da felicidade de olhar nos olhos que pertencem a outrem;
como explico, de par em par, os seus sorrisos no meu peito
                                              as viagens feitas desenhos de uma ponta da casa à outra, nos rodopios do chá acabado de aquecer. A vida passa devagar
tudo ao mesmo tempo
                                                               na tentativa de não deixar passar nenhum traço dele.
Turbilhão das emoções de um peito que bate, bate forte, contra o meu, sinceros segundos de movimentos exploratórios de alguém que não me deixa, a quem respiro no desejo silencioso de o ter.

Como professar, de forma tão profana, a radiância dos meus olhos ao ver-me de mãos dadas, respirando pesadamente ao fim de um dia de estar longe, voltando a amá-lo.
Quantas impossibilidades tem a vida, se não mais de mil formas de expressar que se quer. Não se percebe que um beijo simboliza promessas do fim do dia.

são as que mais gosto.

Não te sei explicar, pois, como é amá-lo, a ele, daqui do meu eu.
Como sabes que amas alguém?
Quando amas, não precisas de pensar nisso.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Retrocedem as marés, deglutindo-se por poderes maiores de quem governa os grãos de areia.
Passam mil vezes mil e uma vezes os metros, em ambas as direções distorcidas de uma realidade de alguma forma paralela, onde existo.
Não preciso de dizer quem sou, algodão desnudo de uma essência muito própria, cheiro a perfume de Sr. de Matosinhos e das pipocas de corantes rosados e amarelados, numa mistura regurgitada de quem não sabe ao certo a qual dos dois pertence.


Digo que vejo os metros que passam, e os autocarros que se encontram num ponto só. Vejo a vida, que vive aos pedaços sem mim, simples viajante do tempo, real senhora do nada, que sente tudo da maneira mais desastrosa possível. Amalgama de fios confusos, cujo único sonho de lucidez mora lá longe, perto demais de um pequeno coração.

Afirmo, pois todos os dias a vejo, que a rapariga vestida de negro observa, de guarda-chuva em punho, aparando as neves por entre cada raio de sol.

Não há momento de sossego que salve de cada pensamento onde se intromete, nariguda desenhada com a função principal de me perguntar porquê.

Falem então, entre vocês, pois eu sinto os pássaros, as suas asas em horas a escorrer de um relógio que nunca para e nunca se move, o toque de alguém

diferente de todo o mundo ao redor
que cria casulos em volta dos nevoeiros da alma, e estende a mão a devaneios estupidificados de uma miúda que se julga crescida.
A mulher de negro ri, em descrença. Mas já nada tem a ver comigo, que me perco
por entre os caminhos que começam e acabam nos teus olhos.

Amem-se os pássaros e as asas que os levam em volta do mundo.
E a ti, e ao sorriso que paira entre duas almas. 


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Explodem-se-me As Veias

Fumo os pulmões, bem cá de dentro, num vórtice de plena campanha anti-tabaco. Espirais de vozes cantadas, por entre raivas absurdas.
Não há ar puro em mim, que me conspurco por entre peles mordidas de lábios carentes.

A desejar, confusa, perder-me em ti, para não ter de fugir de quem sou, escapando-me aos pedaços viajantes de gemidos profundos.
Vergonha de querer apagar-me em ti pelo infinito mais poderoso que a realidade. Crescendo de doenças por entre a vista cansada, pintarolas em todo o lado

explodem-se-me as veias

                                                                           cada qual mais negra que a anterior, num santuário de ódio acumulado de ser eu e nunca o reflexo contrário.
Não se ganha experiência por evacuar os sentidos.

O que arde cura. O que não te mata, faz-te forte.
Se tudo o que é dito e desdito sem pensar fosse banido deste mundo, todos iriam cair mortos.


Viva a parvoeira, então. E deixem a raiva sair.

Hoje, golpeio almofadas em vez de te marcar a carne com anseios desesperados de (deixar de) ser eu, apenas por um momento.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Quando se sabiam de braço dado, por entre as camadas de escuridão que crescem dos lençóis, era perfeita a sintonia de respirar pelos peitos um do outro.
Calma sinfonia de perpétuos sorrisos, escondidas ao canto do olho as lágrimas do terminar.

Observo-te com mil desejos sôfregos de te apreender por inteiro, nesse teu quadrado espaçoso de mundo, que se traduz no ambiente dos nossos dias.

Passa que passa o tempo, tiquetaqueando o relógio. É meia-noite outra vez, meias noites da nossa vida.

Parece que nos encontramos sempre às meias-noites do dia depois do seguinte.
                                                                                                                                                          Passa que passa o passado, presente e futuro já nas nossas mãos.
Agarramos poderosamente tudo o que nos pertence, mãos tacteando carnes e dentes procurando osso onde ferrar, sempre amantes em delírio de viver como queremos

existência é só ser um cometa pela noite fora, rastos apagados de criar paixão através dos corpos, amando através de lavar a loiça.

Vejo-te chegar perto. Não te demores.
A casa só é nossa até ao amanhecer.

sábado, 28 de junho de 2014

Tempo de Café

Tempo de café, e os teus lábios não estão a beijar os meus.
Simulo em almofadas as conversas que temos, enquanto degustamos uma pequena pausa da vida.

Quantos beijos te roubei numa escada, só para de novo os entregares a mim?

Caminho por entre espelhos em segundos, mas não estás.
Faz sol lá fora e chove-me por dentro

Sabes que amo a chuva, não sabes?

Tempo de café, e cada um está do seu lado.
Anseios de ser mais forte do que o que obriga a silenciar a mente e despertar o cérebro.
Palmadas mentais, de ser fraca por querer apenas um abraço teu.
Cheiras bem. Sei disso, porque consigo sentir-te, perfumado, em mim.

Tempo de café e eu aqui, procurando com vontades de desistir ser mais forte, saber mais, rachar ao meio o crânio e deglutir o papel que me rodeia.
Sabes que amo papel, não sabes?

Tempo de café.
Não estou aí, mas beija-me.

Sabes que te amo. Não sabes?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Suavidades delicadas de adormecer em relvados de fantasia. Quantas vezes
às escuras
                                                                                                                me acordam, abanando-me com força,
deixa-te ir
        transporte angelical por entre veias envenenadas e pulmões negros, que voltam a bater em desespero
busca canibalesca e desorganizada de ar
melancólico de perfurar casulos resguardados.

Matam-me, afirmando que vivo num mundo que não é real.
Asas caem das borboletas, o fumo das chaminés quentes é sugado para dentro, cada vez mais para dentro. Adoece-me.

E depois as janelas abrem, talvez respiração boca-a-boca
leva de mim as nostalgias do incompleto
                                                                                       me transforme de novo em alguém.
Mordisco com os dentes as peles dos dedos, no anseio de me acalmar com o que rodopia em mim. Quantas coisas saber de cor que não sei se soube alguma vez, mas que perceciono sem barreiras.

Respiro fundo. Nas recordações, é onde me perco, porque são elas
e a tua voz
que me trazem ao de cima.

"Make me proud"
I will. Always.