Sinto-me a afundar devagar, mas com uma certeza que me faz desatinar, bem no fundo deste oceano que corre cá dentro de mim.
Fecho os olhos, mas o sono não vem, não me apetece. Em vez disso, aproximam-se murmúrios no silêncio fixo da noite, conversas da minha imaginação. Comigo mesma, ou com outros, já nem sei mais, porque todos me parecem um, e um são exatamente todos, a gritar ao mesmo tempo, a exigir mais do que quero e posso dar.
As noites tornam-se frias, daquele tipo de gelo que se encerra nos ossos, no peito, e que se vai alojando timidamente, depois com mais força e depois à bruta.
Tenho frio, tenho um frio só meu.
E preciso desesperadamente do teu calor, antes que o gelo me cubra e me leve para as profundezas de mim mesma.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Alma Sem Cor
Através da cortina de pétalas de chuva, observo o dia a preto e branco, que parece transmitir, precisamente, o mundo que é o meu, sem ponta de cor, desnudo e mudo, completamente estilhaçado.
Há pedaços de mim em cada gota, lentamente me evado do meu corpo, deixo-o sozinho no colchão que começa a arrefecer, apenas com as lágrimas quentes para me manterem acompanhada.
E toda a sanidade colorida dos dias de Verão, se desfaz, ao mesmo tempo que abro os braços e acolho a minha amada escuridão, e ela se funde em mim, na minha alma sem cor.
"Olá, velha amiga" - diz ela.
Não respondo. Estou em casa, na minha alma descolorada, na chuva fria, nos dias cinzentos.
E, assim, começa de novo o ciclo invernoso e espiral da minha auto-destruição.
Há pedaços de mim em cada gota, lentamente me evado do meu corpo, deixo-o sozinho no colchão que começa a arrefecer, apenas com as lágrimas quentes para me manterem acompanhada.
E toda a sanidade colorida dos dias de Verão, se desfaz, ao mesmo tempo que abro os braços e acolho a minha amada escuridão, e ela se funde em mim, na minha alma sem cor.
"Olá, velha amiga" - diz ela.
Não respondo. Estou em casa, na minha alma descolorada, na chuva fria, nos dias cinzentos.
E, assim, começa de novo o ciclo invernoso e espiral da minha auto-destruição.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Desacreditar
Já há muito tempo que digo que me desacreditei em mostrar essa vulnerabilidade que todos parecem loucos por demonstrar quando se relacionam mais intimamente com algum ser que escape dos padrões da normalidade em que se inserem, nesse quotidiano em que querem (ou quererão mesmo?) prender-se e desaparecer do foco de luz.
Torna-se difícil para mim aceitar esse despir da alma - sim, porque despir o corpo chega a ser fácil, como uma tarefa de rotina, despir a alma é mais difícil, nem connosco próprios o fazemos como deve de ser - a outro ser, que passa a possuir-nos por inteiro porque lhe damos permissão.
Eu sou minha. Como é possível que me queira partilhar, cheia de defeitos assustadores e qualidades hipotéticas e exageradamente exageradas pelos que me são queridos?
Sim, é complicado confiar em alguém quando me rodeio de situações parecidas que não resultam. Será porque não encontraram a pessoa para a qual se deviam desnudar? Não acredito nisso, relações são fruto de trabalho e não de acaso e sorte.
Então, devo desacreditar-me a mim mesma numa procura incessante pelo abrir do casulo a outrem, e aconselhar que façam o mesmo, ou estou realmente certa e a alma é nossa, e somos nós quem, no fim, se encontra de pé sozinho?
Torna-se difícil para mim aceitar esse despir da alma - sim, porque despir o corpo chega a ser fácil, como uma tarefa de rotina, despir a alma é mais difícil, nem connosco próprios o fazemos como deve de ser - a outro ser, que passa a possuir-nos por inteiro porque lhe damos permissão.
Eu sou minha. Como é possível que me queira partilhar, cheia de defeitos assustadores e qualidades hipotéticas e exageradamente exageradas pelos que me são queridos?
Sim, é complicado confiar em alguém quando me rodeio de situações parecidas que não resultam. Será porque não encontraram a pessoa para a qual se deviam desnudar? Não acredito nisso, relações são fruto de trabalho e não de acaso e sorte.
Então, devo desacreditar-me a mim mesma numa procura incessante pelo abrir do casulo a outrem, e aconselhar que façam o mesmo, ou estou realmente certa e a alma é nossa, e somos nós quem, no fim, se encontra de pé sozinho?
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Gato Negro (1)
Boa noite pequeno gato, como estás hoje? Pareces-me só, como é teu costume, de pêlo desalinhado e bigodes murchos.
Observo-te de muito longe, porque não posso aproximar-me sem que fujas, assim, num repente, como se não me conhecesses. Somos ainda estranhos não é, pequeno gato negro, fugitivo e desconfiado? Não consegues confiar em mim quando afirmo que tens os olhos mais brilhantes que já vi, que a tua serenidade extrema tem em mim um toque de magia profundo, que me leva a aproximar de ti.
Gato Negro, escuro, fiel companheiro invisível das minhas noites, nada mais és do que um conjunto de personagens. Não te encontras, não te perdes, não podes, já não tens nada para perder, pois não?
Olha, vou-me sentando na beirinha da estrada, à espera que venhas, na tua passada calma, àquela hora habitual, para te observar e esperar que hoje, só hoje, me deixes sentar um bocadinho mais de perto.
Queria abrir caminho para ti, para que pudesses estender a tua pata escura e tocar em luz mas, olha, eu também me preencho da noite. Quero convidar-te, meu pequeno gato quebrado.
Vem, embrenha-te nela comigo, e deixa que me chegue perto.
Só por um dia... Nem que seja só por um...
Observo-te de muito longe, porque não posso aproximar-me sem que fujas, assim, num repente, como se não me conhecesses. Somos ainda estranhos não é, pequeno gato negro, fugitivo e desconfiado? Não consegues confiar em mim quando afirmo que tens os olhos mais brilhantes que já vi, que a tua serenidade extrema tem em mim um toque de magia profundo, que me leva a aproximar de ti.
Gato Negro, escuro, fiel companheiro invisível das minhas noites, nada mais és do que um conjunto de personagens. Não te encontras, não te perdes, não podes, já não tens nada para perder, pois não?
Olha, vou-me sentando na beirinha da estrada, à espera que venhas, na tua passada calma, àquela hora habitual, para te observar e esperar que hoje, só hoje, me deixes sentar um bocadinho mais de perto.
Queria abrir caminho para ti, para que pudesses estender a tua pata escura e tocar em luz mas, olha, eu também me preencho da noite. Quero convidar-te, meu pequeno gato quebrado.
Vem, embrenha-te nela comigo, e deixa que me chegue perto.
Só por um dia... Nem que seja só por um...
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Fá (3)
De partida, hoje, como já muitas vezes. De partida, para voltar, claro, volto sempre, nunca me abandono a uma ideia de permanecer fora, distante, sem nada a que me agarrar.
Hoje, hoje é diferente, porque parto para longe de ti, Fá, minha nota musical de sustenidos, minha nota musical da perfeição. É para longe de ti que parto, sim, mas é bom partir, porque na partida recordamos quem nos espera ao regresso, e quem me espera és tu.
Parto, sim. Mas volto, volto logo. Porque me conseguiste prender em ti mais do que esperei, porque sei que me esperas.
Volto logo, fica descansado. Espero que durmas bem esta noite.
Hoje, hoje é diferente, porque parto para longe de ti, Fá, minha nota musical de sustenidos, minha nota musical da perfeição. É para longe de ti que parto, sim, mas é bom partir, porque na partida recordamos quem nos espera ao regresso, e quem me espera és tu.
Parto, sim. Mas volto, volto logo. Porque me conseguiste prender em ti mais do que esperei, porque sei que me esperas.
Volto logo, fica descansado. Espero que durmas bem esta noite.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Ré (1)

É que estão mesmo perfeitos. Os cortes.
Puxo a manga mais para baixo, prendendo com força lábios traiçoeiros dos quais desejam escapar palavras desconhecidas.
Sou desastrada. Estou sempre a ir contra as coisas.O olhar que lanças demora pouco mais do que segundos, já estamos ambos a pensar noutra coisa, completamente diferente, completamente distante de qualquer segredo que possamos ter. Desvias os olhos e encho-me de alívio de que não vejas como outros vêem. Não há repulsa nem medo, nem compreensão. Só um assentimento mútuo de não dizer palavras, de não apresentar conjeturas, de não esforçar para perceber o que não pode ser compreendido.
Olha, sei que não sabes o que passa a esvoaçar na minha mente, mas não faz mal, porque é mesmo assim que deve ser.
Porque se não, olha, ia magoar, essa tua afirmação irrefletida.
Mas não magoou.
Foi como uma brisa de fim de tarde, algo gelada nos ossos, mas algo quente por dentro.
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ré
sábado, 25 de fevereiro de 2012

Amor. Conheço a palavra, atuo como quem não sabe, desconheço o significado. E perturba-me, perturba-me muito, não ser capaz de distinguir, de ler entrelinhas, de compreender de onde surgem os sentimentos.
Perturba-me, mas rapidamente me esqueço deles.
É só quando abro o livro, quando me deixo levar numa viagem, que me volta ao pensamento, subitamente, como uma brisa de verão com o peso de um vendaval.
Não sei o que é, olha, desculpa, mas o que devo sentir? Não te aproximes.
Olha, gosto de sorrir de longe, é assim que eu amo, de longe, sempre, no escuro, nos bastidores. De perto não, nunca, não sou capaz. Mantenho-me na sombra e deixo que seja o meu olhar a refletir a luz.
Mas os meus olhos? Nunca. Não têm luz suficiente que não seja apagada pela minha própria incapacidade de atuar e de perceber.
Olha, eu observo. Deixa-me suspirar.
De longe. Só de longe.
Perturba-me, mas rapidamente me esqueço deles.
É só quando abro o livro, quando me deixo levar numa viagem, que me volta ao pensamento, subitamente, como uma brisa de verão com o peso de um vendaval.
Não sei o que é, olha, desculpa, mas o que devo sentir? Não te aproximes.
Olha, gosto de sorrir de longe, é assim que eu amo, de longe, sempre, no escuro, nos bastidores. De perto não, nunca, não sou capaz. Mantenho-me na sombra e deixo que seja o meu olhar a refletir a luz.
Mas os meus olhos? Nunca. Não têm luz suficiente que não seja apagada pela minha própria incapacidade de atuar e de perceber.
Olha, eu observo. Deixa-me suspirar.
De longe. Só de longe.
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