quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rascunhos


Por vezes, até os de duas pernas marcam território pelas esquinas do centro da cidade, onde há vida muito depois da uma da manhã.
            De cigarro preso entre os dedos, contemplar a fauna através do nevoeiro à frente dos meus olhos.
            Nada disto era novo, nada disto me proporcionava mais do que o fugaz deleite de observar carros a parar nas luzes vermelhas de um semáforo, soltando roncos de amante satisfeito, no silêncio.
            Homens na noite, cambaleando de volta a casa, para o abraço amargo do sofá. Mulheres "alegres", de sorriso amarelado pela comida que não escovaram bem dos dentes. Miúdas, talvez da minha idade, a gemerem presas na ponta da língua de um rapaz, cujas mãos tremem de antecipação.
            Gostava de recordar tudo isto antes de adormecer, revivendo por detrás das pálpebras a vida que há no mundo, no qual sou apenas turista. O único prazer das apressadas saídas da casa dele, era simplesmente observar aqueles que viviam.
E perguntar-me se me viam, criatura invisível de sapatos de cordão nas mãos, de maquilhagem borratada e de marcas de dentes no pescoço.
            A vida da cidade escapava-me por entre os dedos. No meu cérebro adormecido de mulher-criança, tudo se começava a confundir.
            Enrolei-me, mãos presas na almofada, dormindo em cima do material acolchoado de que são feitos os sonhos.

domingo, 12 de junho de 2016

Desaparecemos no tempo, sombras de ninguém, espelhos de qualquer um.
É o quanto basta.
Esfumando-nos, apreendemos a efemeridade do mundo.
Afinal, as sombras só saem no vazio da luz.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Deixem-me contar-vos a história da rapariga que pegou fogo e se afogou nas próprias cinzas.
E que voltou como sombra dela mesma.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Desapareço por entre lençóis que cheiram a um pedaço qualquer de não estar em casa, alma de viajante corrompida.


domingo, 4 de outubro de 2015

Excertos

Minutos para o anoitecer.
            Agigantava-se a maré de nevoeiro, que anunciava uma descida inesperada da temperatura.
            A porta vibrou, mal toquei à campainha. Ponderei há quanto tempo estaria parado ali atrás, de pé. À minha espera.
            A luz morta dos elevadores nunca me tinha parecido atraente. Sempre que lá ia, era a primeira coisa que me avisava que, talvez, devesse voltar para trás.
            A primeira noite em que visitara Charlie seria também a última em que punha os pés num elevador. O barulho das roldanas, o cheiro a mofo, a luz a piscar no teto.
O espelho baço, onde vi refletida a minha face. Rímel. Maquilhagem preta nos olhos, algo carregada.
            O que vi... Esse foi o aviso número dois.
Escadas.
            Ele já não me esperava por detrás da porta, como fizera no primeiro mês. Não precisei de me anunciar.
- Pizza?
            Há muitas formas de fazer perguntas. Ele costumava tentar alimentar-me para não ver a resposta nos meus olhos.
- Obrigada - não comi. Em vez disso, fiquei a observá-lo. Estava embriagado.
- Tu sabes... sabes que és única! Entendes-me, naquelas situações.
            Ia ser uma longa noite.
- Estás bêbado.
- Não! Há nitidez naquilo que digo, entendes-me?
- Sim.
            Fatia de pizza na mão. Boca repleta de migalhas.
- Vamos para a cama.
Que maneira crua de dizer a alguém que a quer amar.
- Não estás bem.
            Não era uma pergunta.
- Estou ótimo.
            Não era uma resposta.
Vou-me embora.
"Por favor. Fica."
            Quem nunca ouviu um apelo doloroso da alma, nunca saberá porque é que fica parado no mesmo sítio, quando o que realmente quer é ir embora.
Aviso número três.

            Fiquei.

domingo, 13 de setembro de 2015

Sou uma cicatriz.
Ela costumava dizê-lo, nas horas em que o vento soprava com mais força, pejado de restos de espigas e de relva da cor dos prados verdejantes.

Sou uma cicatriz.
Movia-se em corridas loucas como se depressa, cada vez mais depressa, fosse a única forma de escapar das garras do ar irrespirável, dos convites loucos da vida para rebolar e despedaçar a carne, por entre rasgões no vestido.

Num pequeno soluço de vitória, cobre-se o solo de pétalas douradas do Outono que chega, confiante de que dará azo ao Inverno dos meus sonhos, neves cintilantes e fora do pânico de desaparecer nos céus carregados de poluição.

Abandonados todos os seus pertences e navegando confiante por entre as ervas daninhas, carrega no peito o fardo intenso da partida há muito desejada.

E depois de ir


como volto para ti?

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Poesias desertas

Compreender não é o mesmo que saber porquê,
e deleito-me nesses mares vazios, de confrontos de espuma onde não existem ondas
ou o mesmo que sentir que há razão de ser para ser assim.

Esparramado o meu sangue pelas cobertas, invisível, sonhado como sempre.
Sonho com morte em noite esbranquiçada, pelas pregas das cortinas e entrelaçada na chiadeira da persiana, que se mantém fechada em revolta
dessa fachada minha onde só existem poesias de carne no peito da página

Devoro todas as palavras e compreendo que não funcione, embora funcionar seja de máquina, e não humano. Não expliquem as vozes o que sentem peitos, porque não sabem o que dizem.
Conveniências a mais e sensações a menos, explodem securas e pensamentos atrozes
odeio estar no ambíguo de mim mesma
que não revelam nada mais do que bocas que se devoram em pensamentos.

Retrocedem mãos que não se querem mas que conhecem o familiar delas mesmas.
É triste ou será só poético?


E poesia é uma vida no deserto.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Preciso de mais, mais, sempre mais, que não me dá vontade de viver. Corrompo-me desesperadamente a tentar ser eu, testando meios de me afundar num oceano de onde não há volta.
Negras são as águas que correm no meu pensamento, eclipsando o sol lá de fora. Negras são também as nuvens, as sombras, que vejo como se me seguissem incessantemente, quais deuses da má fortuna.

Vitaminas. Não. Não, não.
Preciso de viver, por entre a calamidade da escuridão, pintar os olhos de negras cores, veludos que desfaçam a tristeza e deixem apenas a raiva de não saber quem sou.


Quantas mil vezes pergunto se há forma de escapar de quem somos. Acho que a pergunta correta é quando é que finalmente descobrimos a nossa essência.

Chuvas de raios solares, e não é tudo o que preciso esfumar de mim a necessidade de fugir aos desafios, cortar o que me prende como se marioneta defeituosa.


O céu desaba em mim por se manter no sítio.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Cinco segundos

Quando tinha dezoito anos, a minha melhor amiga desapareceu. Foi um dia completamente normal, só que eu cansei-me de olhar para as estrelas.
Ela acenou-me, lá de longe, na outra ponta do mundo, e eu não notei.
Voltei-me por cinco segundos. Cinco segundos exatos.
Só.
Cinco.
E ela já lá não estava. Acenei para o infinito, sabes? Como se um voltar do pulso a trouxesse de volta. Estava a chover, lembro-me perfeitamente.
Quem diria que demorava tanto a abrir um guarda-chuva.
Esses cinco segundos? Conto-os para sempre.
E agora, já não me cansa olhar as estrelas. Agora perscruto-as, à procura da sombra dela.
Tem que ter uma sombra
Não é?

Alice parou de andar. Voltou-se para mim e sorriu, sorvendo o fumo do cigarro como se zangada com o mundo.

- Foda-se Sam, o que eu dava para ver uma das tuas sombras.

Porque, se calhar, dizia-me onde ela estava.
E eu podia olhá-la por mais cinco segundos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Cai o pano

Enregela-se o ar pelas portadas da janela, abertas de par em par. Congelam-se os pés, dentro da casota onde dormem.
Inspira, expira
o mundo morre em volta.

Que nada mais se erga, e se prove errado o compromisso louco da perfeição. Que nada mais levante o dedo de sentida ilusão de fósforo na noite e estrelas cadentes.

Nada. Exceto ela e o
inspiro, expiro
Nada. Exceto o pano.

Pequena, até o palco finda
                                                   até o público evacua
                                                                                          pequena. o pano cai.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quando amas, não precisas de pensar nisso

Imagino-a de lábios cerrados, concentração intensa nas palavras que demora quinze minutos a escrever. Não sabe o que quer ouvir, mas pergunta-mo, mesmo assim.
"Como sabes que amas alguém?"

E eu penso que se me congela a língua, doem-me os dedos de sonhar sequer que devo responder-lhe. Porque vivo intensidades equivalentes ao cheiro leve de maresia, numa tarde de verão a findar, e como flocos de nuvens me escapa o raciocínio lógico de como explicar que distinguir felicidades é uma eternidade num dia.

Na verdade, pergunto-me mesmo se sei responder. Como pôr em palavras radiâncias da felicidade de olhar nos olhos que pertencem a outrem;
como explico, de par em par, os seus sorrisos no meu peito
                                              as viagens feitas desenhos de uma ponta da casa à outra, nos rodopios do chá acabado de aquecer. A vida passa devagar
tudo ao mesmo tempo
                                                               na tentativa de não deixar passar nenhum traço dele.
Turbilhão das emoções de um peito que bate, bate forte, contra o meu, sinceros segundos de movimentos exploratórios de alguém que não me deixa, a quem respiro no desejo silencioso de o ter.

Como professar, de forma tão profana, a radiância dos meus olhos ao ver-me de mãos dadas, respirando pesadamente ao fim de um dia de estar longe, voltando a amá-lo.
Quantas impossibilidades tem a vida, se não mais de mil formas de expressar que se quer. Não se percebe que um beijo simboliza promessas do fim do dia.

são as que mais gosto.

Não te sei explicar, pois, como é amá-lo, a ele, daqui do meu eu.
Como sabes que amas alguém?
Quando amas, não precisas de pensar nisso.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Retrocedem as marés, deglutindo-se por poderes maiores de quem governa os grãos de areia.
Passam mil vezes mil e uma vezes os metros, em ambas as direções distorcidas de uma realidade de alguma forma paralela, onde existo.
Não preciso de dizer quem sou, algodão desnudo de uma essência muito própria, cheiro a perfume de Sr. de Matosinhos e das pipocas de corantes rosados e amarelados, numa mistura regurgitada de quem não sabe ao certo a qual dos dois pertence.


Digo que vejo os metros que passam, e os autocarros que se encontram num ponto só. Vejo a vida, que vive aos pedaços sem mim, simples viajante do tempo, real senhora do nada, que sente tudo da maneira mais desastrosa possível. Amalgama de fios confusos, cujo único sonho de lucidez mora lá longe, perto demais de um pequeno coração.

Afirmo, pois todos os dias a vejo, que a rapariga vestida de negro observa, de guarda-chuva em punho, aparando as neves por entre cada raio de sol.

Não há momento de sossego que salve de cada pensamento onde se intromete, nariguda desenhada com a função principal de me perguntar porquê.

Falem então, entre vocês, pois eu sinto os pássaros, as suas asas em horas a escorrer de um relógio que nunca para e nunca se move, o toque de alguém

diferente de todo o mundo ao redor
que cria casulos em volta dos nevoeiros da alma, e estende a mão a devaneios estupidificados de uma miúda que se julga crescida.
A mulher de negro ri, em descrença. Mas já nada tem a ver comigo, que me perco
por entre os caminhos que começam e acabam nos teus olhos.

Amem-se os pássaros e as asas que os levam em volta do mundo.
E a ti, e ao sorriso que paira entre duas almas. 


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Explodem-se-me As Veias

Fumo os pulmões, bem cá de dentro, num vórtice de plena campanha anti-tabaco. Espirais de vozes cantadas, por entre raivas absurdas.
Não há ar puro em mim, que me conspurco por entre peles mordidas de lábios carentes.

A desejar, confusa, perder-me em ti, para não ter de fugir de quem sou, escapando-me aos pedaços viajantes de gemidos profundos.
Vergonha de querer apagar-me em ti pelo infinito mais poderoso que a realidade. Crescendo de doenças por entre a vista cansada, pintarolas em todo o lado

explodem-se-me as veias

                                                                           cada qual mais negra que a anterior, num santuário de ódio acumulado de ser eu e nunca o reflexo contrário.
Não se ganha experiência por evacuar os sentidos.

O que arde cura. O que não te mata, faz-te forte.
Se tudo o que é dito e desdito sem pensar fosse banido deste mundo, todos iriam cair mortos.


Viva a parvoeira, então. E deixem a raiva sair.

Hoje, golpeio almofadas em vez de te marcar a carne com anseios desesperados de (deixar de) ser eu, apenas por um momento.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Quando se sabiam de braço dado, por entre as camadas de escuridão que crescem dos lençóis, era perfeita a sintonia de respirar pelos peitos um do outro.
Calma sinfonia de perpétuos sorrisos, escondidas ao canto do olho as lágrimas do terminar.

Observo-te com mil desejos sôfregos de te apreender por inteiro, nesse teu quadrado espaçoso de mundo, que se traduz no ambiente dos nossos dias.

Passa que passa o tempo, tiquetaqueando o relógio. É meia-noite outra vez, meias noites da nossa vida.

Parece que nos encontramos sempre às meias-noites do dia depois do seguinte.
                                                                                                                                                          Passa que passa o passado, presente e futuro já nas nossas mãos.
Agarramos poderosamente tudo o que nos pertence, mãos tacteando carnes e dentes procurando osso onde ferrar, sempre amantes em delírio de viver como queremos

existência é só ser um cometa pela noite fora, rastos apagados de criar paixão através dos corpos, amando através de lavar a loiça.

Vejo-te chegar perto. Não te demores.
A casa só é nossa até ao amanhecer.

sábado, 28 de junho de 2014

Tempo de Café

Tempo de café, e os teus lábios não estão a beijar os meus.
Simulo em almofadas as conversas que temos, enquanto degustamos uma pequena pausa da vida.

Quantos beijos te roubei numa escada, só para de novo os entregares a mim?

Caminho por entre espelhos em segundos, mas não estás.
Faz sol lá fora e chove-me por dentro

Sabes que amo a chuva, não sabes?

Tempo de café, e cada um está do seu lado.
Anseios de ser mais forte do que o que obriga a silenciar a mente e despertar o cérebro.
Palmadas mentais, de ser fraca por querer apenas um abraço teu.
Cheiras bem. Sei disso, porque consigo sentir-te, perfumado, em mim.

Tempo de café e eu aqui, procurando com vontades de desistir ser mais forte, saber mais, rachar ao meio o crânio e deglutir o papel que me rodeia.
Sabes que amo papel, não sabes?

Tempo de café.
Não estou aí, mas beija-me.

Sabes que te amo. Não sabes?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Suavidades delicadas de adormecer em relvados de fantasia. Quantas vezes
às escuras
                                                                                                                me acordam, abanando-me com força,
deixa-te ir
        transporte angelical por entre veias envenenadas e pulmões negros, que voltam a bater em desespero
busca canibalesca e desorganizada de ar
melancólico de perfurar casulos resguardados.

Matam-me, afirmando que vivo num mundo que não é real.
Asas caem das borboletas, o fumo das chaminés quentes é sugado para dentro, cada vez mais para dentro. Adoece-me.

E depois as janelas abrem, talvez respiração boca-a-boca
leva de mim as nostalgias do incompleto
                                                                                       me transforme de novo em alguém.
Mordisco com os dentes as peles dos dedos, no anseio de me acalmar com o que rodopia em mim. Quantas coisas saber de cor que não sei se soube alguma vez, mas que perceciono sem barreiras.

Respiro fundo. Nas recordações, é onde me perco, porque são elas
e a tua voz
que me trazem ao de cima.

"Make me proud"
I will. Always.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Suavemente Emergem As Luzes Nos Passeios

Suavemente emergem as luzes nos passeios, transparentes das janelas. Não se ouvem os carros passar, noite que é noite, é o silêncio de dois corpos barulhentos.
Chão lá em baixo, paraíso lá de cima,
espalham-se os tecidos caídos em desuso da alma
                                                       aglomerado de sensações nossas, mas únicas.
Por entre cada suspiro mergulhado em cascatas de riso melódico, não sou mais eu, mas tão minha.
Complica-se então esta questão do pertencer,
                                                                   porque sou tua
                                                                    na verdade de ninguém sou, nem de mim, apenas perdida por entre o aroma perfumado que é teu e o cheiro adocicado das almofadas.
O meu nome é teu, tal como o teu é dito por entre galáxias do pensamento, em forma de sussurro ou suspiro acalorado do ser eu.
Movimentos calorosos de alegria em forma de ser esquisito, como se união de milhões de células pequeninas formassem um conjunto de dois que são um.

Suavemente, apagam-se as luzes nos passeios, transparentes das janelas.
E fico a ver-te, apagado por entre lençóis que murmuram intrigados, aos quais não respondo.
Não há palavras para cada traço teu, 

deleitam-se todos os meus sentidos, com a tua imagem
                                                                                  lado a lado, palma com palma.
Navegam transeuntes lá fora, e voltamos a esquecer-nos do dia, porque podemos.
Termo-nos, sós, em condições pares de colchões e almofadas espalhadas por entre a rouquidão característica dos amantes.

Ambos correm contra o relógio, avançando devagar por entre as ondas do tempo, qual dos pares ganha:
O dos ponteiros
ou o dos apaixonados, prazenteiros humanos que devagar se esquecem de que o são, na rapidez do amar.

Com fome, desejo e loucura, amo assim
como nunca 
cada traço meu a pertencer a ti
e a ser cada vez mais meu.


sábado, 24 de maio de 2014

Quantos casulos mais,
borboleta desastrada
                                  rasgo, libertando pedaços de um ser, corroendo asas cor da lua.
Afastem-se de mim, qual ácido peçonhento que jorra vomitados muito próprios e leva tudo no seu caminho.
A agressividade da sobrevivência,
nova lei do mais forte
quão fraca
                                   perdida em devaneios de lagarta, que sonha com o céu cinzento e chuvoso do Inverno. Qual quê, os dias de calor, se apalpando as diferenças me dói cada vez mais o existir.

Quantos os devaneios que as vozes da minha mente transportam
diz-me, quem sou e porque sou incapaz de me afastar de tudo o que é real e viver em sonhos
                                                                                                 , desiludindo-me constantemente comigo.
Como conciliar um ser que não existe
com aquele que desejo ser.

Cortinas flutuam nos ventos.

Podia ser tão invisível como um espectro. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Caderno de Pensamentos (4)

Por entre as luzes fortes, a ação à minha frente, escapam-se as pupilas, volto-me à procura de pedaços de ti, à minha beira.
Lado a lado, sinto como nuvem fofa de algodão as tuas mãos nas minhas. Faço questão de verificar se são reais, quem sabe devaneio da minha mente, adoecida pelo querer-te a cada momento

e refrear-me, impedir-me de te olhar como se, verdadeiramente, se formassem constelações no teu olhar.
Espreito-te, então, por entre pausas previamente estudadas, perco-me nas entrelinhas da tua face, nas expressões mais pequenas de ti
cada ligeiro movimento uma variação que faço questão de
decorar. Devagar
mas com a voracidade de quem
engole.

Assustador oxigénio macroscópico da minha sanidade.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Espetam-se os dedos de unhas recortadas na pele, tão macia
não era suposto sê-lo
                                                                                                                             que enoja profundamente, branco luminoso cor de pele, macilento como a face de quem dorme pouco, enevoada por demasiadas vidas que não existem, simplesmente forçando o seu caminho dentro
de mim
cada uma mais exigente do que a outra
Escreve

                                                                                 acordam o pulsar nas minhas veias,
sangue por todo o lado, esventro-me de forma a que saiam o mais rápido possível
Haja alguém que vos enrede! Farto-me das vossa vozes!
CALEM-SE!


Frio e calor tudo junto
miríade de sentimentos, que
não sinto, nada é meu.
Maravilhosa forma de despersonalizar o eu, fragmentando-me.
Cheira a betadine

 Memórias percorrem a parede, reflexos fugitivos no espelho, pelo canto do olho. Apanhada.
Passado aos uivos em mim.

E porque não?
E porquê agora?

Silencia-se o eu que não racionaliza, nuvens carregadas de chuva,

as palavras passam ao lado
até que volto.

"I fucking love you like hell!!"

Está tudo bem.
Chove cá dentro, mas não fora de mim. Escreve, é o que tens que fazer.

Calem-se as vozes desconhecidas que conheço tão bem.
Estou segura.
Já passou. Onda gigantesca, maré que me abocanha... já lá vai.
Trouxeste-me de volta. Delírios novos

apagando fogos antigos.